Sindicato dos Escritores Baratos

Um blog sobre literatura embebido em muita poesia

Língua de lã

Leio a língua,
é pano e porta.
Penso e pinto
o pano, a porta.

Leio a linda
língua viva
lendo a língua
morta.

é pensa a porta.
é medo e morta
a língua viva
na língua morta.

Rua Demétrio Ribeiro # 467

Torvelinhos na alma, redemoinhos no chão,
Venta por aqui o frio do vento sul…

As frestas uivam rindo dos medos dos meninos e
lá embaixo as pessoas caminham escondidas em si mesmas,
agasalhadas com sobriedade passageira e escuridão.

Sozinho nas poucas roupas que vestia,
a não ser pela companhia do cão,
o catador de papelão assobia
Um samba paulista bem pelo meio da rua.

A formosura da cena,
muito menos real e
muito mais imaginação,
Existe na beleza de quem, quando olha pro mundo
não acha o mundo,
só acha um mundo
quando olha na própria direção.

A beleza de vigiar é usufruto das almas que se perdem em solidão

Poemas editados

Então galera, ando fazendo algumas mudanças nos meus poemas, dando uma polida, cortando a gordura excessiva, adequando eles a novas descobertas estéticas e demais maluquices, pois quero sair dessa vida de não publicado e montar um livro, que seja um e-book!, mas uma livro. Por isso vou tirar gradativamente meus poemas em suas velhas formas dos arquivos do blog e publicar alguns reeditados. Não vou mais publicar toooodos, como sempre fiz, para que os livros tenham alguma coisa de “especial”, mas continuarei colocando minhas poesias, que espero que já não estejam tão baratas assim, “de grátis” aqui no blog. É isso aí.

 

                                                      ***

em cada acaso e cada esquina
há pouca sorte e muita sina
e as profecias que se auto-cumprem
continuam cumprindo a sua função:

tornando cada ato vão
o imprevisível destruído no
mundo da tal globalização
então eu penso no mercado
tão ingrato! não cumpriu o nosso trato
me deixou aqui na mão

 

logo eu

     que tomei todas as marcas de refrigerantes
     e muito antes de todo mundo comprei
     o disco original da melhor banda
     e paguei no crédito! ( ou foi no débito?)

eu comprei remédio
fui ao cinema pra espantar o tédio
tomei sorvete
matei a sede com gatorade
     eu que comprei até smoking
     para fumar o meu baseado
     mas o mercado, tão ingrato!
     não cumpriu o nosso trato
     me deixou aqui na mão

 

mas que porra!
eu tomei cerveja
e assisti todas as propagandas
joguei na loto toda semana
comprei guitarra videogame
umas revistas aluguei fitas
mas já comprei meu DVD

eu escuto rádio e vejo TV
     mas e aí que você vê
     como o mercado é tão ingrato
     não cumpriu o nosso trato
     me deixou aqui na mão

Por trás da vidraça

Cantam os pneus atropelando gotas de par em par
chove sobre e dentro de mim espesso,
e um cão me olha da janela do segundo andar.

livre e longe de todo urbano que conheço,
dos caminhos fáceis ao próximo oásis-bar,
tropeço e vejo, a poça, o reflexo intenso

da alma que se esconde, agora sem lugar,
e quer voltar e vai ficando, e ensimesmada ri,
sob a proteção do guarda-chuva e do cigarro aceso:
as duas grandes companhias do que resta aqui,

onde as meias estão sempre molhadas e frias
e as solas sempre prestes a sumir ou derrapar
no chão, sem terras, de presenças sem alegrias,

onde um cão me olha da janela do segundo andar…

Romance desamoR

O jovem Pessoa

Olá, quinzenalmente vou contribuir com o blog Urubutres com tiras do “Jovem Pessoa”, que é uma personagem inspirada na idéia de um Fernando Pessoa pós-adolescente, fazendo um exercício de imaginar situações através das quais ele chegou aos versos que chegou. Bom, depois de uns dias da tira lá no Urubutres, vou colocar as tiras aqui também…Aproveitem e passem lá para ler o Danilo! Abraços!

O jovem Pessoa 01

O jovem Pessoa 01

Gostos

às vezes gosto de noz-moscada
às vezes gosto de pimentão
noutro dia é manjericão
e tem o dia da raiz amarga
tanto dia que é de madrugada
gosto de tudo, gosto de nada

se tem uma hora da pimenta
tem também a hora do limão
noutro dia gosto de agrião
mas sempre gostei bem mais de menta
tem dia que o azeite contenta
gosto dos gostos todos da venda

e se tem o dia do estragão
também tem dia de caramelo
incríveis dias de cogumelo!
até dia de inanição
todos gostos que me valerão
não cabem dentro dessa canção

gosto do sim e também do não
gosto do sim e também do não.

Hirsuto # 01

Mais homem aquele

que ainda é menino,

e chora calado, por medo completo

de ser entendido.

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